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EDUCAÇÃO ENEM

Estudante com ansiedade e estresse pós-traumático na BA tira nota mil na redação do Enem 2020: 'falar da minha realidade'

Atley Reis de Souza, de 21 anos, mora em Sátiro Dias, cidade a cerca de 150 quilômetros de Salvador. Ele homenageou Clarice Lispector e citou revelação de Padre Fábio de Melo na redação com tema: 'O estigma associado às doenças mentais na sociedade brasileira'

02/04/2021 11h07
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Por: Redação Fonte: G1 - Bahia
Foto: Arquivo Pessoal
Foto: Arquivo Pessoal

Atley Reis de Souza, de 21 anos, egresso da rede pública de ensino na cidade de Sátiro Dias, localizado a cerca de 150 quilômetros de Salvador, ficou surpreso ao descobrir que foi uma das 28 notas mil na redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2020.

O jovem, que enfrentava problemas emocionais, Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) e Transtorno do Estresse Pós-traumático (TEPT), encontrou no tema da redação: “O estigma associado às doenças mentais na sociedade brasileira”, a oportunidade para falar sobre uma realidade que ele conhecia.

“A primeira coisa que eu fiz foi ver o tema da redação, porque antigamente ficava no fim da prova e agora fica no meio. Quando eu abri e vi o tema, eu comecei a me arrepiar todinho, porque eu ia falar da minha realidade”, disse o jovem.

Em entrevista ao G1, Atley Reis contou que o tema foi a "coisa mais íntima" que ele poderia tratar na redação, por morar em uma cidade pequena e saber o que é ser estereotipado algumas vezes.

“Eu moro em um ‘interiorzinho’ da Bahia. Sátiro Dias é uma das menores cidades da Bahia, e falar de estigma, de estereótipos de quem sofre problemas mentais e emocionais é a coisa mais íntima que eu podia falar naquele momento, mais segura, era sobre mim mesmo”, contou.

“Eu estava fazendo tratamento de transtorno de ansiedade, transtorno de estresse pós-traumático. Aqui as pessoas são vítimas de estigmas, por ser uma cidade muito pequena”.

Remédios para ansiedade no dia da prova

Estudante nota mil na redação do Enem 2020 usou remédios para conter ansiedade durante a prova — Foto: Arquivo PessoalEstudante nota mil na redação do Enem 2020 usou remédios para conter ansiedade durante a prova — Foto: Arquivo Pessoal

Momentos antes de começar a prova, Atley abriu a mochila para pegar uma garrafa de água e foi esbarrado por um colega de sala. Ele lembra que algumas cartelas de remédio para depressão caíram no chão e o deixou intimidado.

“Antes de fazer a prova, eu sem querer fui abrir a mochila para pegar uma garrafinha de água e um amigo falou: O que é isso aí?’ Aí derrubou no chão e caiu algumas cartelas de remédio diazepam, o famoso rivotril e eu falei: 'Não é nada’. Eu fiquei morto de vergonha”, contou.

Durante o exame, ele contou que também pediu para ir ao banheiro e fazer o uso do medicamento, já que estava com a ansiedade alta.

“Eu pedi para ir no banheiro, não falei que eu ia tomar o remédio. Até porque eu tinha colocado o remédio dentro do bolso. Todo o material, chave, celular, fica lacrado, aí se eu colocasse lá eu não ia poder abrir no meio da prova para tomar o meu remédio. Aí eu fui no banheiro e lá fiz a administração do remédio”, afirmou Atley.

“O remédio não era administrado naquele horário, eu tomei por causa da ansiedade. O remédio é pela manhã, depois do café e depois do jantar, mas eu tomei a medicação para diminuir ansiedade, porque estava muito alta”.

Cuidados com a avó e sonho de fazer medicina

Avó de Atley sempre o incentivou a fazer medicina — Foto: Arquivo PessoalAvó de Atley sempre o incentivou a fazer medicina — Foto: Arquivo Pessoal

Hoje, Atley Reis sonha em fazer medicina. No dia 29 de março, quando saiu o resultado do Enem, o baiano lembrava de um dia triste. Completava um ano de morte da avó Maria José Reis de Souza, por complicações de diabetes.

“No dia 29, aconteceu o resultado, eu falei: ‘Deus, me ajuda a lidar com esse dia, porque foi o dia que completa um ano que a minha avó faleceu’. Eu cuidei da minha avó por 12 anos”, disse.

Atley Reis lembra que a avó era uma das pessoas que mais o incentivava para que ele fizesse medicina. O desejo cresceu após ele ouvir do médico que ele precisava parar de chorar, se não ele não faria a massagem respiratória na idosa.

“Meu sonho é medicina porque a minha avó morreu nos meus braços e o médico falou: ‘Cara, se você chorar, eu não vou fazer a massagem cardíaca na sua avó’ e isso mexeu comigo, eu comecei a ter traumas de médico”.

“Já era meu sonho por eu cuidar da minha avó, só que eu sou do interior da Bahia, não tenho condições de fazer uma faculdade particular, mas eu acredito que Deus tem preparado o melhor para mim”, disse.

Maria José foi quem financiou as passagens para que o jovem viajasse para Inhambupe, município que fica próximo de Sátiro Dias, e fizesse a prova.

“Ela me dava dinheiro, ela falava: ‘Meu filho, nunca esqueça dos seus sonhos’. Ela me dava R$ 10, R$ 20, o que ela tinha para eu fazer a prova em Inhambupe, porque aqui não faz a prova, tenho que pegar dois ônibus para fazer nos dois domingos”.

'Felicidade Clandestina' e 'A vida é bela'

Estudante nota mil na redação do Enem 2020 usou remédios para conter ansiedade durante a prova — Foto: Arquivo PessoalEstudante nota mil na redação do Enem 2020 usou remédios para conter ansiedade durante a prova — Foto: Arquivo Pessoal

Na construção do texto, Atley Reis homenageou a escritora Clarice Lispector, autora da obra "Felicidade Clandestina". Ele fez uma relação entre a personagem alagoana, de 19 anos, que vive no Rio de Janeiro e sofre com problemas emocionais, com a realidade vivida por muitas pessoas com transtornos mentais.

“Então, eu falei com meu coração porque eu coloquei o título assim: ‘Felicidade Clandestina’, porque já que é para falar de felicidade, de transtorno mental. Eu acredito que quem tem problemas mentais, emocionais, autismo, transtorno de ansiedade, algo depressivo um pouco maior, vive uma felicidade clandestina”, explicou.

Outro filme citado pelo baiano foi "A Vida é Bela", que conta a história do judeu Guido e o filho Giosué, levados para um campo de concentração nazista durante a Segunda Guerra Mundial, na Itália. O personagem principal trata a situação como uma brincadeira, para que o filho não ficasse com medo.

“Falei sobre o filme 'A Vida é Bela', um filme que ganhou o Oscar. Ele fala do holocausto, de um pai que finge que as coisas que acontecem é uma brincadeira para o filho. Acontece toda a guerra na Itália e o filho acredita que é uma brincadeira. Bombas, as explosões, foi uma redação bem recheada”, relatou o jovem.

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